Eu penso, logo distorço

Partimos do princípio de que todo o nosso pensamento é racional e “está certo”. Mas os nossos pensamentos estão cheios de erros e distorções da realidade. As nossas emoções ou as nossas crenças podem distorcer os nossos pensamentos, dando-nos a sensação de que não os podemos controlar. A estes pensamentos, que não controlamos, podemos chamar de pensamentos automáticos (negativos). Trata-se de pensamentos disfuncionais que também denominamos de pensamentos distorcidos.

Todos nós temos pensamentos distorcidos. Na maior parte do tempo estes pensamentos são extremamente rápidos e desta forma, geralmente não estamos conscientes deles, e sim da emoção (raiva, tristeza, alegria, medo, nojo, surpresa, desprezo, etc.) que eles produzem. No entanto, se colocarmos a nossa atenção sendo observador de nós próprios, é possível e desejável, darmo-nos conta de quais são os estímulos que provocam este tipo de pensamentos que temos tendência a ter.

Os pensamentos distorcidos fazem parte de um padrão habitual de pensamentos, por isso temos dificuldade de percebê-los. Esses são geralmente vistos por nós como representações da realidade, e, por conseguinte, tendemos a acreditar nos mesmos sem questionar a sua legitimidade e fundamentação.

Do mesmo modo que desenvolvemos hábitos comportamentais, desenvolvemos também hábitos de pensamento. Tais hábitos podem ser modificados. Logo, se desejamos mudar a nossa forma de pensar devemos prestar atenção aos nossos pensamentos, em primeiro lugar.

Reflectir sobre quais são os pensamentos distorcidos que tem tendência a ter é uma excelente ferramenta. Se os conseguir identificar, vai-lhe ser bastante mais fácil rebatê-los, pô-los em causa e por conseguinte evitar muitos momentos de mau estar psicológico a si e aos outros à sua volta.

Seguem-se alguns dos pensamentos distorcidos mais frequentes:

GENERALIZAÇÃO
Chega-se a uma conclusão geral com base num incidente ou numa evidência particular. Por exemplo, ter um acidente de carro levar à conclusão de que se é mau condutor (e o melhor é nunca mais conduzir); uma receita que não resultou bem pode significar que não se sabe cozinhar. Alguém o trata de forma injusta e pensa logo “ninguém gosta de mim”. Usa palavras “sempre” e “nunca”, “ninguém” e “toda a gente” para retirar conclusões de situações especificas.

CATASTROFISMO
Neste estado, é esperado o pior cenário. É a famosa tempestade num copo d’água. Reparamos ou ouvimos falar num problema e começamos logo a pensar “e se”. “E se há uma tragédia?”; “E se me acontece alguma coisa nesse lugar?”; “E se chove?”

LER A MENTE
A leitura mental é um “dom especial” que pode se manifestar de duas formas: Quando a pessoa tem a certeza que sabe o que o outro está a pensar. E quando a pessoa crê que o outro tem o poder e o dever de saber o que ele está a pensar (quanto mais íntima a relação, maior a ilusão). “ Sei perfeitamente que ele me acha aborrecida”; “É claro como água que ela não gosta de mim”; “Tenho a certeza de que na realidade eles não me querem no grupo”.

PENSAMENTO POLARIZADO
Pensamento preto-e-branco, tudo ou nada, é 8 ou 80. “Ou sou perfeito ou sou um fracasso”; “se não sou deslumbrante, sou horrível”, não há meio termo. O problema é que por norma colocamo-nos no extremo negativo da nossa polarização. Se não é perfeito, então é porque não vale nada; se não consegue o emprego que queria, o seu futuro acabou; se a sua relação não funciona, então nunca há de encontrar o amor verdadeiro, e por aí fora.

PERSONALIZAÇÃO
Implica pensar que tudo o que as pessoas fazem ou dizem é de alguma forma uma reacção a nós. Como por exemplo: O seu companheiro diz-lhe que a casa está um bocadinho desarrumada e você de imediato interpreta esse comentário como uma crítica aos seus dotes de dona de casa. Alguém no trabalho refere que a equipa este mês não alcançou os objectivos e você assume automaticamente que o comentário lhe é dirigido a si.

FILTRAR
O filtro serve-nos para focar em pormenores negativos de determinada situação e amplificá-los, ao mesmo tempo que eliminamos dessa situação todos os aspectos positivos. Eis um exemplo: vestiu-se magnificamente para um evento formal e o seu companheiro faz-lhe um elogio. No entanto, ao sair da sala, ele diz-lhe que a bainha do vestido não está direita. E agora já não se sente elegante e a noite está arruinada porque está preocupada com a bainha do vestido. E o facto de ele achar que está bonita, passa-lhe completamente ao lado.

ATRIBUIÇÃO DE CULPA
Se na personalização a pessoa tende a culpar-se por tudo o que acontece à sua volta, na atribuição de culpa ocorre exactamente o contrário. Neste caso, a tendência é procurar culpados externos e considerar as próprias falhas como responsabilidade dos outros. Dito de outra forma, quem sustenta este tipo de pensamento sente-se vítima das circunstâncias e, portanto, não se orienta para a mudança. É uma desresponsabilização. Exemplos: “A culpa é dele por me estar a sentir mal“; “São os meus pais que causaram todos os meus problemas”.

MINIMIZAÇÃO DO POSITIVO
É o famoso “sim, mas…”… A pessoa diz para si mesma que experiências, actos ou qualidades positivas não contam.
“Eu fiz bem aquele projecto, mas isso não significa que eu seja competente, eu apenas tive sorte.”

OS “DEVERIAS”
A pessoa costuma iniciar frases com “Eu deveria” ou “Eu tenho que…”. Também cria expectativas exageradas em relação ao comportamento alheio, o que acaba por gerar emoções negativas quando isso não se concretiza.

COMPARAÇÕES INJUSTAS
Este pensamento de comparação faz com que a pessoa faça comparações irreais entre a sua vida e as conquistas alheias: “Ele é mais bem-sucedido que eu”; “ela conseguiu fazer aquela viagem, e eu não”, sem avaliar os caminhos que foram trilhados para chegar a tal ponto. Isso causa um sentimento de inferioridade e insatisfação com os próprios resultados.

Pode ser difícil confrontar-se com o facto de que grande parte daquilo que pensa é marcado por pensamentos distorcidos, mas tomar consciência disso é o primeiro passo para mudar.

Joana Norton

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